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WandaVision

O fantástico, o verossímil e o ficcional em Harry Potter

  Voar em uma vassoura ou encontrar um chapéu que fala não são coisas possíveis de se ver ou fazer no mundo real, mas pode-se vivenciar essa experiência quando se desfruta de uma obra fantástica. Esse gênero fictício se caracteriza, de acordo com Todorov (2019, p. 31), pela incerteza apresentada por um indivíduo que está sempre cercado pelas leis naturais ao presenciar um acontecimento sobrenatural. Para que se defina o fantástico, o indivíduo não pode fazer uma escolha entre o natural e o sobrenatural: ele deve permear pelos dois universos, pois, por meio dessa incerteza e intercalação de ambos os mundos, o fantástico se faz possível. Sendo assim, para Todorov (2019, p. 30):  Num mundo que é exatamente como o nosso, aquele que conhecemos, sem diabos, sílfides e nem vampiros, produz-se um acontecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mesmo mundo familiar [...] O fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimen...

Os caminhos do luto em Wandavision

Não é segredo que a Marvel vem saturando o mercado cinematográfico com suas produções, a antes tão elogiada formula Marvel já esta desgastada por conta da incessante repetição, por este motivo, quando suas séries foram anunciadas fiquei receosa, meu medo era de que a tal formula atravessasse as barreiras do cinema e invadisse a televisão deixando a temática tão amada de super-heróis enjoativa por sempre ser apresentada da mesma forma. No entanto, para alegria de todos e felicidade geral da nação, Wandavision chegou reformulando a formula Marvel e trazendo um frescor a muito não visto nas produções da empresa. A série foi vendida ao publico como uma sitcom, e nos primeiros 3 capítulos é isso que é entregue, sabemos que tem algo errado, a própria historia nos da pistas disso o tempo todo, seja de formas sutis, como no primeiro capitulo com a indagação de Agnes sobre a ausência da aliança na mão de Wanda ou de forma mais enfática, mostrando elementos coloridos em uma série em preto e branco. Mas apesar disso, a série nos engana, somos enganados pela Marvel, como já fomos enganados milhares de vezes pela Pixar. Isto mesmo, neste show a Marvel imita a Pixar, nos vende um tema leve e lúdico, de uma feiticeira que se casa com um robô e vai morar em uma pequena cidade, tudo isso enfeitado pelo passeio pela história das séries televisivas, mas que nos entrega realmente, uma serie sobre os processos do luto. Um tema pesado de forma bem leve! Nos dois primeiros episódios temos a estética baseada em series da década de 50 e 60, temos a imagem quadrada e toda em preto e branco, é interessante perceber que nestes episódios são os que Wanda esta mais entregue a primeira fase do luto, a negação. Ela tenta fugir da realidade, então uma estética tão fora do nosso padrão estético televisivo se torna ainda mais justificável, e da as cores, que aparecem em poucos momentos, um novo sentido, elas seriam os instantes em que Wanda se da conta que aquilo não passa de uma ilusão. Já no episodio três, temos um capitulo baseado na década de 70, com isso as cores voltam, mas a tela quadrada permanece. Esta mudança estética indica a nova fase do luto que Wanda se encontra, a fase da raiva. No final do segundo episodio, já pode ser visto uma manifestação desta raiva quando a protagonista vê o apicultor e resolve recomeçar a cena. Neste final do episodio dois e em todo o decorrer do episodio três, o que se percebe é que assim como qualquer pessoa passando pelo mesmo processo de luto, Wanda se irrita e afasta qualquer coisa que a lembre da sua dor. Nos episódios cinco e seis estamos nas décadas televisivas de 80 e 90, neste ponto as fases do luto se misturam um pouco, a protagonista se encontra na fase da barganha, etapa em que o enlutado já tem consciência do que esta acontecendo e tem que se esforçar muito mais para tentar se iludir. Elementos como a raiva e a negação ainda estão presentes, porem aqui Wanda já sabe que esta vivendo uma ilusão, mas se nega a sair dela de forma consciente. Neste episodio podemos colocar Visão e Wanda como uma mesma pessoa, enquanto ele seria o subconsciente e estaria incomodado, sentindo algo de estranho acontecendo, ela seria a consciência se negando a aceitar a realidade apesar de ter ciência dela. No episodio sete entramos no ano de 2009 e como não poderia deixar de ser, a serie referenciada foi Modern Family, sendo assim temos presentes as quebras de quarta parede, que é quando o personagem fala diretamente com o publico, e se encerram as atuações mais exageradas. Estas mudanças de estilo são importantes para nos ambientar na nova fase que a protagonista esta adentrando, a da depressão. Neste episodio Wanda já tem total consciência de sua real situação, os esforços exacerbados feitos ate aqui para se manter na ilusão cobram um preço, ela visivelmente esta perdendo o controle, o mundo dos sonhos esta desmoronando, e este descontrole emocional é muito bem representado visualmente, tanto pela atuação de Elizabeth Olsen, que representa com maestria uma personagem entregue, que não tem forças para se iludir, mas também não agüenta a vida real, quanto pela direção de arte, que consegue transmitir esta confusão pelas trocas constantes de objetos de cena e coloração dos elementos. Enfim chegamos ao oitavo episodio, neste ponto já não se tem mais referencias as décadas da TV, é uma produção Marvel, mas isso não tira a qualidade do episódio. Wanda ainda esta na fase da depressão, só que agora é obrigada pela vilã, a revisitar todos os momentos marcantes de sua vida. Por mais estranho que pareça não consigo ver a Agatha Harkness apenas como vilã, ela agiu quase o tempo todo como uma espécie de psicóloga, fazendo questionamentos, apontando falhas nas historias criadas por Wanda, a levando a reflexão, sendo por bem ou mal, uma das responsáveis por trazer a protagonista novamente a si. Para o despertar completo acontecer, era necessária uma força interior ajudando no processo e Agatha faz exatamente este papel, sendo questionando Wanda, ou agindo de forma estranha perto do Visão, e neste episodio final ela vai ainda mais fundo, fazendo com que a protagonista encarasse seus traumas de frente e os enfrentasse. Outro responsável por este despertar foi o SWORD, que neste contexto, representava a vida que continuava a seguir seu fluxo normal mandando sinais de sua existência a Wanda. Agora chegamos ao nono e ultimo episodio e com ele à ultima fase do luto, a aceitação. O que me incomoda um pouco é a grande batalha entre Wanda e Agatha, logicamente é uma batalha necessária para o enredo, a vilã precisa ser detida, mas a meu ver, um embate mais interessante para as duas seria algo como a resolução do conflito que ocorreu entre o Visão e o Visão Branco, uma luta para a compreensão e aceitação se encaixaria muito mais no enredo ate aqui apresentado, do que uma luta do bem contra o mal. Apesar disto o episodio é muito bonito e em seus momentos mais intimistas, vemos o amadurecimento de Wanda, ela cresce muito em termos de poder, e provavelmente este será o aspecto mais explorado nas próximas produções do MCU, mas também cresce como pessoa, vendo as consequências dos seus atos, se arrepende por eles e acima de tudo, aprendendo junto com os telespectadores, a importância de se de se dar um tempo para superar as perdas, vivendo cada umas das etapas, por mais difícil que elas possam ser, e no final, entender que as pessoas que se foram serão sempre um pedaço das nossas próprias jóias da mente, vivendo em nós.

Comentários

  1. Muito bom o texto. Parabéns!

    Eu gostei do seriado, embora tenha me deixado incomodado com os 20 minutos semanais. Mas foi uma experiência interessante. Seu texto fez eu gostar mais da drama.

    A Marvel sempre entrega entretenimento e divertimento, e por vezes algo a mais. Posso lembrar da vez que chorei nos créditos finais de Vingadores Guerra Infinita, quando o Thanos vence a luta e os Vingadores percebem que perderam, de logo fiz uma associação, muitos judeus talvez se sentiram assim, esse sentimento de "não é possível! perdemos! e agora???". Esse seriado também nos fez pensar.

    Acho que Loki vai ser mais divertimento só. Mas estou animado. Talvez esse filme dos Eternos dê para criar umas teorias legais sobre a Babilônia e os tempos antigos, muitas teorias da conspiração legais kkkkk.

    Abraço!

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